Vive Ativo

Artrose: o que é, quem tem em Portugal e o que fazer

A artrose é o desgaste lento da cartilagem que cobre as pontas dos ossos dentro de uma articulação, aquilo a que muita gente chama «cartilagem gasta». Em Portugal, o estudo nacional EpiReumaPt encontrou artrose do joelho em 12,4 % dos adultos, das mãos em 8,7 % e da anca em 2,9 %. Não tem cura. Mas o exercício e a perda de peso aliviam a dor, e o caminho no SNS começa no médico de família.

12,4 %
dos adultos em Portugal têm artrose do joelho (EpiReumaPt, 2016)
8,7 %
têm artrose das mãos, e 13,8 % entre as mulheres
248
mulheres com artrose por cada 100 homens (INE, 2019)
120 dias
prazo máximo legal para a 1.ª consulta hospitalar normal no SNS

O que é a artrose e quantas pessoas a têm em Portugal?

A artrose, também chamada osteoartrose ou osteoartrite, é uma doença em que a cartilagem da articulação se vai gastando e o osso por baixo reage, formando pequenas saliências ósseas chamadas osteófitos. A cartilagem é a camada lisa que deixa os ossos deslizarem um sobre o outro, e quando afina, a articulação dói com o esforço, fica rígida e perde movimento.

Há dois tipos. A artrose primária aparece sem uma causa identificável e é a forma mais comum, resultado de fatores genéticos e ambientais que se somam ao longo dos anos. A artrose secundária tem um «porquê» concreto, como uma fratura ou entorse antiga, uma displasia da anca, obesidade, uma artrite anterior ou uma doença metabólica, segundo a revisão clínica StatPearls.

O retrato português vem do EpiReumaPt, o único estudo nacional em que 10 661 adultos foram rastreados e os casos suspeitos observados por reumatologista (Branco et al., RMD Open, 2016).

A diferença entre sexos é enorme nas mãos e quase nula na anca. Por cada 100 homens que dizem ter artrose há 248 mulheres, confirma o Inquérito Nacional de Saúde do INE (2019). No mesmo inquérito, quem tem 45 ou mais anos refere a doença cerca de 15,6 vezes mais do que quem tem entre 15 e 44 anos.

Portugal não é exceção. O estudo Global Burden of Disease 2021 (Lancet Rheumatology, 2023) estima 607 milhões de pessoas com artrose no mundo, 7,7 % da população.

Que sintomas dá a artrose?

Os sintomas típicos da artrose são três: dor que aparece com o movimento e acalma em repouso, rigidez curta depois de estar parado e perda gradual de amplitude, segundo o NHS.

A rigidez da artrose é breve. Segundo a orientação NICE NG226, o quadro típico é uma pessoa com 45 ou mais anos, com dor ligada à atividade e rigidez matinal ausente ou até 30 minutos. Nesse quadro o médico pode fazer o diagnóstico só pela conversa e pelo exame, sem imagem.

Rigidez que dura mais de 30 a 60 minutos todas as manhãs, ou mãos inchadas dos dois lados ao mesmo tempo, sobretudo nos nós dos dedos, já apontam noutra direção. Esse padrão lembra mais a artrite reumatoide. Explicamos o quadro nas páginas sobre os vários tipos de artrite e sobre as diferenças entre artrite e artrose.

Para quem tem dor em várias articulações e ainda nenhum diagnóstico, existe um guia próprio de dor nas articulações sem diagnóstico, com as causas mais frequentes em cada idade.

Onde aparece a artrose: joelho, anca, mãos, coluna, ombro e tornozelo

A artrose pode atingir qualquer articulação, mas quase sempre escolhe as que suportam peso ou trabalham muito. Cada zona tem sinais próprios e uma página nossa dedicada.

Joelho

O joelho lidera. Em Portugal, 12,4 % dos adultos e 15,8 % das mulheres têm artrose do joelho, segundo o EpiReumaPt. É também a articulação mais estudada. Os ensaios de géis anti-inflamatórios, por exemplo, foram feitos quase só em joelhos. O tema completo está na página da artrose no joelho em detalhe.

Anca

A artrose da anca (coxartrose) afeta 2,9 % dos adultos portugueses, quase por igual nos dois sexos. Algumas formas começam em alterações do formato do osso: a displasia da anca ou o conflito femoroacetabular, em que o fémur e a bacia chocam de forma anormal durante o movimento (StatPearls). No conflito femoroacetabular, a dor aparece sobretudo na virilha e pode sentir-se também na parte lateral da anca, na coxa, na nádega ou no fundo das costas; piora com o esforço e quando se passa muito tempo sentado (AAPM&R). Por isso é fácil confundi-la com uma dor que vem das costas. Mais na página sobre a artrose da anca e coxartrose.

Mãos e dedos

Nas mãos, a artrose deixa nódulos duros nas articulações dos dedos: os de Heberden, junto à unha, e os de Bouchard, a meio do dedo. A rizartrose, na base do polegar, dói a rodar uma chave ou a abrir um frasco. Veja a artrose nas mãos e nos dedos. Se ainda não há diagnóstico, comece pelas dores nas articulações das mãos, onde se comparam artrose, artrite, túnel cárpico e tendinites.

Coluna

Na coluna, a artrose das pequenas articulações entre vértebras forma os osteófitos a que em Portugal se chama «bico de papagaio». Na zona lombar, a dor que vem dessas articulações vai para a nádega e a coxa, mas raramente passa abaixo do joelho. Detalhes na página da artrose na coluna e bico de papagaio.

Ombro

No ombro há duas articulações que podem gastar-se. A acromioclavicular, onde a clavícula encontra o ombro, é a mais atingida mas muitas vezes nem dá sintomas; a glenoumeral dói ao levantar ou lançar. Está tudo na página da artrose do ombro explicada.

Tornozelo e pé

No tornozelo, a artrose sem causa é rara. A maioria surge anos depois de uma fratura ou de entorses repetidas. No pé, o local mais comum é a base do dedo grande (hallux rigidus). Ver a artrose do tornozelo e do pé.

Como se mede a gravidade: os graus de Kellgren-Lawrence

A gravidade da artrose no raio-X mede-se habitualmente pela escala de Kellgren-Lawrence, que vai de 0 a 4. É o «grau» dos relatórios.

O grau na imagem e a dor nem sempre andam juntos. Há quem tenha grau 3 e poucas queixas, e quem sofra muito com grau 2 (MedEdPORTAL). Por isso decide o médico, não a imagem sozinha.

Tenho artrose. E agora?

Em Portugal, o primeiro passo é marcar consulta com o médico de família no centro de saúde (USF ou UCSP), que avalia, pede análises ou raio-X quando fazem falta e decide se é preciso referenciar para o hospital, conforme a circular ACSS/SPMS sobre o acesso a consultas.

Muitos leitores chegam aqui depois de anos de queixas. Numa plataforma portuguesa de perguntas a médicos, alguém resumiu assim uma década de dor, infiltrações e anti-inflamatórios: «não aguento dores, q fazer?». O percurso no SNS é este:

  1. Médico de família. Consulta no centro de saúde, exame da articulação e, se necessário, análises e raio-X.
  2. Referenciação. Se o caso o justificar, o pedido segue pelo sistema do SNS para Ortopedia, Reumatologia ou Medicina Física e de Reabilitação (MFR).
  3. Escolha do hospital. Pelo regime de livre acesso, é possível escolher, com o médico, qualquer hospital do SNS que tenha a especialidade, comparando os tempos de espera publicados.
  4. Primeira consulta hospitalar. Tem um prazo máximo legal que depende da prioridade atribuída.

Esse prazo chama-se TMRG, tempo máximo de resposta garantido. Foi fixado na Portaria n.º 153/2017 e mantido na Portaria n.º 137/2026/1, em vigor desde 2 de abril de 2026. Na prática, os hospitais nem sempre o cumprem. A ULS Santa Maria, em Lisboa, publicou os seus tempos médios de agosto de 2026.

É um hospital, não a média do país. Serve para mostrar que a espera por Ortopedia pode passar de um ano, e que vale a pena comparar hospitais antes de aceitar o primeiro.

A consulta e a cirurgia feitas por referenciação no SNS não pagam taxa moderadora desde 1 de junho de 2022 (Decreto-Lei n.º 37/2022). O custo real da via pública é o tempo. Como organizar o tratamento durante essa espera, e o que se faz no privado, está no plano de tratamento da artrose.

Há dois pormenores que poupam tempo. O prazo de 120 dias para a primeira consulta hospitalar de prioridade normal conta a partir do dia em que o médico de família regista o pedido no sistema de referenciação do SNS, e não a partir da primeira queixa. Por isso, adiar a ida ao centro de saúde também adia o início da contagem.

Para dúvidas entre consultas, a Linha SNS 24 (808 24 24 24) avalia os sintomas por telefone e indica se basta cuidar em casa, se é caso de centro de saúde ou de urgência. Não serve para pedir consulta de Ortopedia ou de Reumatologia, porque essa decisão depende, em regra, de uma avaliação presencial.

O que alivia a artrose sem medicamentos?

O que mais alivia a artrose não se compra. Nas orientações da OARSI (2019), exercício regular e perda de peso são o núcleo do tratamento para todas as pessoas com artrose, e conta tanto o exercício em terra como o feito na água. O ponto de partida em Portugal é difícil. Segundo o INE (2019), 53,6 % dos adultos têm excesso de peso ou obesidade. Que exercício fazer, quanto peso perder e como juntar o resto está no guia de exercício e perda de peso no tratamento.

Surge quase sempre a mesma pergunta: a artrose tem cura, e o que valem os tratamentos que prometem cartilagem nova? Respondemos com os estudos na página sobre se a artrose tem cura.

Tratamento, suplementos e pomadas: onde aprofundar

Esta página é a porta de entrada. Cada decisão prática tem uma página própria, com fontes e, onde há produtos, preços de farmácias portuguesas verificados a 24 de setembro de 2026.

Quando a dor articular não é artrose

A artrose evolui devagar. Alguns sinais não são artrose e pedem avaliação no próprio dia:

  • Articulação quente, vermelha e muito inchada, sem pancada. No mesmo dia, urgência hospitalar ou a Linha SNS 24 pelo 808 24 24 24. Pode ser uma infeção da articulação, que a destrói em poucos dias. A febre pode não aparecer.
  • Queda com deformação ou incapacidade de apoiar a perna. Ligue 112.
  • Dor nas costas com perda súbita de força nas pernas ou de controlo da urina ou das fezes. Ligue 112.

A Linha SNS 24 funciona 24 horas por dia, todos os dias, e é gratuita, segundo a ERS.

Artrose em números portugueses; o diagnóstico fica para a consulta

Aqui reunimos o que se sabe da artrose em Portugal: quantas pessoas tem, como se reconhece, como se lê um raio-X e por onde passa o caminho no SNS. Cada número tem a fonte ao lado e a lista completa no fim. Não encontra aqui diagnóstico, nem indicação de medicamento ou dose. Isso decide-se em consulta, com a articulação à frente do médico.

Porque não publicamos um tempo médio nacional de espera? Porque os números que conseguimos confirmar em documento oficial são de um só hospital, em agosto de 2026. Dar esse valor como média do país seria inventar uma certeza que não temos.

Fontes utilizadas 22

  1. Branco JC et al. — Prevalence of rheumatic and musculoskeletal diseases in Portugal: EpiReumaPt, RMD Open (2016)
  2. INE — Inquérito Nacional de Saúde 2019, doenças crónicas (2020)
  3. INE — Inquérito Nacional de Saúde 2019, excesso de peso e atividade física (2020)
  4. ACSS/SPMS — Circular Informativa Conjunta n.º 21/2016, acesso a consultas hospitalares (2016)
  5. Portaria n.º 153/2017, tempos máximos de resposta garantidos (2017)
  6. Portaria n.º 137/2026/1, revisão dos TMRG (2026)
  7. ULS Santa Maria — Tempos de resposta da consulta externa, agosto de 2026 (2026)
  8. Decreto-Lei n.º 37/2022, taxas moderadoras (2022)
  9. ERS — O acesso a cuidados de saúde através da Linha SNS 24 (2026)
  10. Bannuru RR et al. — OARSI guidelines for the non-surgical management of osteoarthritis (2019)
  11. GBD 2021 Osteoarthritis Collaborators — Lancet Rheumatology (2023)
  12. NHS — Osteoarthritis: symptoms (consultado em 2026)
  13. NICE — Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management, NG226 (2022)
  14. StatPearls — Osteoarthritis (consultado em 2026)
  15. MedEdPORTAL — Classificação radiológica de Kellgren-Lawrence (consultado em 2026)
  16. NHS — Septic arthritis (2026)
  17. Clegg DO et al. — Glucosamine, chondroitin sulfate, and the two in combination for painful knee osteoarthritis (GAIT), NEJM (2006)
  18. Derry S et al. — Topical NSAIDs for chronic musculoskeletal pain in adults, Cochrane CD007400 (2016)
  19. Aletaha D et al. — 2010 ACR/EULAR rheumatoid arthritis classification criteria, Arthritis & Rheumatism (2010)
  20. NHS — Osteoarthritis: overview (consultado em 2026)
  21. StatPearls — Femoroacetabular impingement (consultado em 2026)
  22. AAPM&R PM&R KnowledgeNow — Femoroacetabular impingement syndrome (consultado em 2026)

Perguntas frequentes

A artrose tem cura?

Não. Com os tratamentos atuais, a cartilagem gasta não volta a crescer, e o objetivo é aliviar a dor e manter a articulação a funcionar. Segundo o NHS, a doença não piora obrigatoriamente com o tempo e às vezes melhora aos poucos. Quando a articulação está muito destruída, a prótese substitui-a.

Artrose, osteoartrose e osteoartrite são a mesma coisa?

Sim, são três nomes para a mesma doença de desgaste da cartilagem. «Osteoartrite» é mais usado em traduções do inglês. Artrite reumatoide é outra doença, autoimune, com tratamento diferente.

Com que idade aparece a artrose?

Torna-se comum a partir dos 45 anos. No Inquérito Nacional de Saúde de 2019, as pessoas com 45 ou mais anos referem artrose cerca de 15,6 vezes mais do que as de 15 a 44 anos. Uma lesão antiga pode antecipá-la.

A artrose é mais frequente nas mulheres?

Sim, no joelho e nas mãos. No EpiReumaPt, a artrose das mãos atinge 13,8 % das mulheres e 3,2 % dos homens; no joelho, 15,8 % contra 8,6 %. Na anca, a diferença é mínima: 3,0 % contra 2,9 %.

Que médico trata a artrose em Portugal?

O médico de família acompanha a maioria dos casos e é quem referencia para Ortopedia, Reumatologia ou Medicina Física e de Reabilitação, conforme o quadro. A cirurgia, como a prótese, é feita pela Ortopedia.

Preciso de ressonância magnética para saber se tenho artrose?

Na maioria dos casos, não. Segundo a NICE, em pessoas com 45 ou mais anos, dor com o esforço e rigidez matinal até 30 minutos, o diagnóstico faz-se pela consulta. O raio-X ajuda a ver o grau; a ressonância fica para dúvidas específicas decididas pelo médico.