Dor nas articulações: causas e o que fazer
Resposta curta: a dor nas articulações tem muitas causas, e a mais comum a partir dos 40–50 anos é a artrose — o desgaste da cartilagem. Mas nem toda a dor articular é artrose: infeções, gota, doenças autoimunes e lesões também doem, e algumas são urgentes. Antes de tomar seja o que for, vale a pena saber distinguir a dor "de desgaste", que se controla com peso e movimento, dos sinais de alarme, em que é preciso ir ao médico.
As causas mais comuns
A dor numa ou em várias articulações — as "dores nas juntas" da linguagem do dia a dia — pode vir de origens muito diferentes. As mais frequentes:
- Artrose. Desgaste da cartilagem, a causa mais comum com a idade. A cartilagem que reveste os ossos vai-se gastando, o osso fica mais exposto e aparece dor ao mover-se, que alivia em repouso. A artrose do joelho afeta cerca de 22,9% das pessoas com 40 ou mais anos, e é mais frequente nas mulheres. É a nossa área principal: veja o que é a artrose.
- Lesões e sobrecarga. Uma torção, uma queda ou um esforço repetido lesionam ligamentos, tendões ou a própria cartilagem. A tendinite — inflamação de um tendão por uso repetido — dá dor localizada que piora com o gesto que a provoca. Costuma melhorar com repouso relativo e tempo.
- Gota. Depósito de cristais de ácido úrico numa articulação, muitas vezes o dedo grande do pé. A crise é súbita e intensa, com a articulação quente, vermelha e muito sensível, às vezes de um dia para o outro. Repete em ataques.
- Artrite reumatoide e outras autoimunes. O sistema imunitário ataca as próprias articulações. Dá rigidez de manhã prolongada e costuma afetar as duas mãos ou os dois lados do corpo em simultâneo. É diferente do desgaste e precisa de tratamento próprio: veja artrite ou artrose.
- Infeção (artrite séptica). Uma articulação quente e inchada com febre, sobretudo sem pancada que a explique. Destrói a articulação em poucos dias. É uma urgência hospitalar.
Uma articulação ou várias? O padrão orienta
Quantas articulações doem ao mesmo tempo? Isso já diz muito ao médico. Dor numa só articulação (monoarticular) aponta mais para desgaste local, lesão, gota ou infeção. Dor em várias articulações ao mesmo tempo (poliarticular), sobretudo de forma simétrica nas duas mãos ou nos dois lados, aponta mais para uma doença inflamatória sistémica como a artrite reumatoide.
Uma articulação isolada, quente e muito inchada, é o padrão que mais preocupa: até prova em contrário, trata-se como possível infeção e vai-se ao hospital.
Dor "mecânica" ou "inflamatória" — a distinção que orienta tudo
Antes de pensar em tratamento, ajuda saber que tipo de dor tem:
- Dor mecânica. Aparece com o movimento e o esforço e alivia com o repouso. É o padrão da artrose e costuma piorar ao fim do dia, depois de a articulação ter trabalhado.
- Dor inflamatória. Dói mesmo em repouso, muitas vezes de noite, com rigidez de manhã que dura mais de 30–60 minutos. Pode apontar para artrite reumatoide ou outra doença que precisa de avaliação.
Se a sua dor é claramente inflamatória, não a trate como desgaste — procure o médico para um diagnóstico correto. A rigidez matinal prolongada é, de todos os sinais, o que melhor separa o desgaste da inflamação.
Dor nas articulações e cansaço juntos
Quando a dor articular vem acompanhada de cansaço marcado, febre baixa ou mal-estar geral, é um sinal para não assumir "é da idade". A artrose é local. Não dá febre nem cansaço por todo o corpo. Se a estes sintomas gerais se junta a dor nas articulações, o corpo sinaliza algo mais do que desgaste.
Essa combinação pode indicar uma doença inflamatória (como a artrite reumatoide) ou infeciosa, e merece avaliação médica em vez de suplementos. Cansaço e dor difusa que persistem semanas são motivo de consulta, não de auto-tratamento — e menos ainda de começar um produto para "articulações" comprado por conta própria.
Onde ir com dor nas articulações, em Portugal
O ponto de entrada normal é o médico de família, nas USF e UCSP dos cuidados de saúde primários. É ele que avalia a queixa, pode pedir análises e uma radiografia inicial e, quando é preciso, referencia para uma consulta hospitalar de ortopedia ou reumatologia. A referenciação é eletrónica (sistema ALERT P1/CTH) e pode ser acompanhada no Portal do SNS.
Convém saber que a espera por essas consultas de especialidade é longa. Em 2025, o tempo médio nacional de espera para uma primeira consulta de ortopedia rondava os 204 dias, e o de reumatologia os 212 dias, chegando a 548 dias em alguns hospitais — das especialidades com pior desempenho no SNS. No regime de livre acesso e circulação, o utente pode comparar os tempos de espera publicados de cada hospital antes de aceitar o que lhe é atribuído por defeito.
Enquanto espera, há muito que já pode fazer sem receita nem marcação — é o tema da secção seguinte.
O que pode fazer enquanto espera a consulta
Se a dor é mecânica e já foi avaliada como artrose, o que mais ajuda não sai de uma caixa e não depende de marcação:
- Movimento. O exercício alivia a dor com um efeito comparável ao dos medicamentos e fortalece os músculos que protegem a articulação. As sociedades médicas colocam-no como primeira linha.
- Controlar o peso. Menos peso, menos carga, sobretudo em joelhos e ancas. Perder cerca de 5 kg reduziu para metade o risco de artrose do joelho em mulheres, ao longo de dez anos.
- Calor ou frio nas crises e descanso, sem parar de mexer no resto.
- Analgésicos, quando indicados pelo médico.
Os suplementos entram por último e com expectativas realistas — a maioria tem evidência fraca. Leia o que a evidência mostra, ingrediente a ingrediente, antes de gastar.
O que este guia faz — e o que não faz
Aqui ajudamos a perceber que tipo de dor tem e o que fazer a seguir, com base nos estudos. Não substitui o médico, que é quem descobre a causa da sua dor — e a causa muda tudo. A mesma dor pode ser desgaste inofensivo ou o primeiro sinal de algo que precisa de tratamento rápido, e essa diferença não se resolve com um produto de balcão.
Porque não sugerimos suplementos antes do diagnóstico
Não recomendamos começar suplementos com base só na dor, porque a dor não diz a causa. Os produtos para "articulações" são estudados na artrose (desgaste), não numa infeção nem numa doença autoimune — e nessas, começar um suplemento só serve para atrasar o tratamento que resolve. Primeiro saber o que se tem; depois, se for artrose, ponderar o que a evidência suporta.
- articulação quente, vermelha e muito inchada, sobretudo sem pancada
- febre acima de 38° com uma articulação a inchar e a doer depressa
- dor súbita e intensa numa articulação que fica impossível de mover
- dor com rigidez de manhã que dura mais de 30–60 minutos
- dor nas articulações com cansaço, febre baixa ou perda de peso
- inchaço em várias articulações ao mesmo tempo
- incapacidade de apoiar o peso ou de usar a articulação
Fontes utilizadas
- Sintomas e tipos de dor articular, NHS: https://www.nhs.uk/conditions/osteoarthritis/symptoms/
- Epidemiologia da osteoartrose: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2920533/
- Prevalência da artrose do joelho (40+): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7704420/
- Exercício e perda de peso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10922233/
- Efeito do exercício (tamanhos de efeito): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3555691/
- Artrite séptica (sinais de alarme), NHS: https://www.nhs.uk/conditions/septic-arthritis/
- Acesso ao SNS e referenciação: https://www.sns.gov.pt/sns-saude-mais/marcacao-de-consultas-2/
- Tempos de espera no SNS (ortopedia/reumatologia): https://observador.pt/especiais/a-maioria-das-especialidades-nao-cumpre-tempo-maximo-de-espera-para-consultas-oftalmologia-reumatologia-e-alergologia-sao-as-piores/