Onde dói a artrose da anca?
Tipicamente na virilha, por vezes com irradiação para a coxa ou o joelho. A dor na parte lateral costuma ser outra coisa (bursite), não coxartrose.
Atualizado 15 de outubro de 2026 9 min de leitura
Resposta curta: a artrose na anca — ou coxartrose — é o desgaste da cartilagem da articulação da anca. O sinal mais típico é dor na virilha (e não tanto na lateral), que piora ao andar e aparece ao pôr meias ou calçar sapatos. É mais comum com a idade e controla-se com perda de peso, exercício e analgésicos; nos casos avançados, a prótese da anca é uma das cirurgias com melhores resultados.
A anca é a articulação onde a cabeça do fémur encaixa na bacia, e suporta o peso do corpo ao andar e ao estar de pé. Quando a cartilagem que reveste esse encaixe se desgasta, surge a coxartrose: dor, rigidez e perda de amplitude do movimento. É a mesma doença descrita no panorama geral da artrose, aqui numa articulação funda e de carga.
Há um ponto que confunde muita gente. A dor da anca sente-se na virilha, por vezes irradia para a coxa ou o joelho — e não na parte lateral, que costuma ser outra coisa (bursite ou tendinite). É por isso que há quem ande com dor no joelho que, afinal, vem da anca.
Como no resto do corpo, a idade é o principal fator. Mas na anca há duas causas estruturais que merecem nome, porque explicam artrose mais cedo do que o esperado — a chamada artrose secundária:
A coxartrose é menos frequente do que a artrose do joelho, mas não é rara: estima-se que afete cerca de 7% das mulheres com mais de 65 anos, e aumenta com a idade.
Em Portugal, o EpiReumaPt mediu-a diretamente. Reumatologistas observaram milhares de adultos de todo o país e confirmaram coxartrose em 2,9 % deles (Branco et al., RMD Open, 2016). Aqui há uma surpresa. Ao contrário do joelho e da mão, a anca quase não distingue sexos: 3,0 % nas mulheres, 2,9 % nos homens.
Se a rigidez de manhã durar mais de 30–60 minutos, pense noutras causas e procure o médico — veja artrite ou artrose.
A dor da anca e a dor lombar que "desce" tratam-se de forma diferente — e muita gente anda a tratar a zona errada. Convém separá-las.
A dor da coxartrose concentra-se na virilha e agrava com a marcha e com os gestos de rodar ou abrir a anca (calçar, entrar no carro). Já a dor de origem lombar costuma partir das costas ou da nádega. A dor das facetas da coluna irradia para a nádega e a face posterior da coxa mas caracteristicamente não desce abaixo do joelho; a dor de uma hérnia com nervo comprimido tipicamente desce abaixo do joelho, seguindo o trajeto do nervo pela perna.
Na dúvida, é o médico que localiza a origem, muitas vezes com uma radiografia da anca. Se quiser perceber a coluna, veja artrose na coluna e cervical.
No SNS, esse médico é o de família. É ele quem pede o raio-X no centro de saúde e, quando a dor não cede, referencia para a consulta hospitalar de Ortopedia, com um tempo máximo garantido de 120 dias para a prioridade normal (Portaria 153/2017).
Este texto explica o que é a coxartrose e o que ajuda, mas não confirma que a sua dor vem da anca — dor na virilha, na coxa e no joelho pode ter várias origens (incluindo a coluna), e é o médico que localiza a causa, muitas vezes com uma radiografia. E não indicamos doses de suplementos por conta própria: sem avaliação, seria leviano — e é por essa brecha que muita venda entra a quem tem dores.
A gravidade da coxartrose no raio-X classifica-se pela escala Kellgren–Lawrence, de 0 a 4, que mede o estreitamento do espaço articular e os osteófitos. Nas articulações que suportam peso, como a anca, a evolução tende a ser progressiva, embora possa ser lenta ao longo de vários anos — e a perda de peso e evitar sobrecargas repetidas ajudam a travá-la.
Convém guardar uma ressalva. Nem sempre a imagem coincide com a dor. Há ancas com desgaste marcado no raio-X e queixa mínima, e há o oposto. O plano de tratamento sai da consulta, onde a radiografia é só uma peça.
O que mais ajuda na anca não se compra:
E as pomadas? Os géis anti-inflamatórios foram testados quase só no joelho, que fica logo debaixo da pele. A anca é funda e está coberta por músculo espesso. A OARSI 2019 notou que quase não há ensaios feitos na própria anca, por isso não se sabe se o gel ajuda aqui.
Também aqui os suplementos ficam pela evidência fraca do costume — veja a comparação dos suplementos, ingrediente a ingrediente. Nenhum reconstrói a cartilagem da anca, e as guidelines OARSI e ACR recomendam contra a glucosamina na anca. A medida com melhor evidência, e a única gratuita, continua a ser o peso e o movimento — precisamente aquilo sobre o qual os anúncios de cápsulas se calam.
O objetivo é fortalecer os músculos que estabilizam a anca — sobretudo os glúteos — e manter a amplitude, sem impacto. Alguns exemplos que um fisioterapeuta costuma indicar:
A regra é constância e progressão gradual, não intensidade. Uma dor ligeira durante o exercício é aceitável; dor que aumenta e persiste horas depois é sinal de que se exagerou. Um programa mantido durante semanas dá muito mais resultado do que sessões isoladas.
A artroplastia da anca (prótese) é considerada nos casos avançados, com dor que limita a vida e não melhora com as outras medidas. É uma das cirurgias ortopédicas com melhores resultados. Muitas pessoas recuperam mobilidade e ficam sem dor.
A decisão e o momento são do ortopedista e baseiam-se na dor e na limitação, não apenas no grau do raio-X. Não é uma urgência. Mas também não vale a pena adiar indefinidamente quando a qualidade de vida já está muito afetada. A recuperação envolve fisioterapia nas semanas seguintes para readquirir força e uma marcha normal.
Depois de o ortopedista propor a prótese, entra-se na lista de inscritos para cirurgia do SNS. Desde 2 de abril de 2026, a Portaria 137/2026/1 fixa o limite em 180 dias para a prioridade normal e em 30 dias para a prioritária. Nem sempre se cumpre. Na ULS Santa Maria, em Lisboa, a cirurgia ortopédica normal levava em média 268 dias em agosto de 2026. As etapas do percurso, da infiltração à prótese, estão no guia sobre o tratamento da artrose no SNS.
Pelo caminho aparecem anúncios de um "tratamento inovador" que dispensaria a operação, quase sempre PRP ou células estaminais. A OARSI 2019 recomendou fortemente contra os dois, por a evidência ser de qualidade extremamente baixa; o resto dessas promessas está avaliado em se a artrose tem cura.
Tipicamente na virilha, por vezes com irradiação para a coxa ou o joelho. A dor na parte lateral costuma ser outra coisa (bursite), não coxartrose.
A dor da anca fica na virilha e agrava ao andar e a rodar a perna. A dor lombar parte das costas ou da nádega; a das facetas não passa o joelho, a de uma hérnia com nervo comprimido desce abaixo do joelho. O médico localiza a origem.
Atividades de baixo impacto (nadar, bicicleta) e fortalecimento dos músculos da anca e das nádegas. Um fisioterapeuta indica o programa; evitar a inatividade.
A cartilagem gasta da anca não volta, mas a dor baixa com peso, exercício e analgésicos. Nos casos avançados, a prótese resolve a dor com muito bons resultados.
Nos ensaios grandes não superou o placebo e as guidelines recomendam contra o seu uso na anca. Tolerância boa, benefício pequeno ou nenhum; mais detalhe em suplementos para as articulações analisados.
Sim, e deve. Andar dentro do que a dor permite mantém a articulação móvel e fortalece os músculos que a suportam. O que faz mal é a inatividade e a sobrecarga em excesso; ajuste a distância às queixas e evite terrenos que doam mais.