Artrose na anca (coxartrose): sintomas e o que fazer
Resposta curta: a artrose na anca — ou coxartrose — é o desgaste da cartilagem da articulação da anca. O sinal mais típico é dor na virilha (e não tanto na lateral), que piora ao andar e aparece ao pôr meias ou calçar sapatos. É mais comum com a idade e controla-se com perda de peso, exercício e analgésicos; nos casos avançados, a prótese da anca é uma das cirurgias com melhores resultados.
O que acontece na anca
A anca é a articulação onde a cabeça do fémur encaixa na bacia, e suporta o peso do corpo ao andar e ao estar de pé. Quando a cartilagem que reveste esse encaixe se desgasta, surge a coxartrose: dor, rigidez e perda de amplitude do movimento.
Há um ponto que confunde muita gente: a dor da anca sente-se na virilha, por vezes irradia para a coxa ou o joelho — e não na parte lateral, que costuma ser outra coisa (bursite ou tendinite). É por isso que há quem ande com dor no joelho que, afinal, vem da anca.
Porque aparece a coxartrose
Como no resto do corpo, a idade é o principal fator. Mas na anca há duas causas estruturais que merecem nome, porque explicam artrose mais cedo do que o esperado — a chamada artrose secundária:
- O impacto femoroacetabular (FAI) são pequenas malformações do osso, no fémur (tipo "cam") ou no acetábulo, a cavidade da bacia (tipo "pincer"). Provocam um contacto anormal na articulação a cada movimento e desgastam a cartilagem ao longo dos anos.
- A displasia da anca é uma articulação que não formou bem na infância. Mesmo em graus ligeiros não diagnosticados na altura, distribui mal a carga e leva a artrose mais tarde na vida.
- O excesso de peso e o esforço repetido aceleram o desgaste, como em qualquer articulação que suporta o corpo.
A coxartrose é menos frequente do que a artrose do joelho, mas não é rara: estima-se que afete cerca de 7% das mulheres com mais de 65 anos, e aumenta com a idade.
Quais são os sintomas
- Dor na virilha ao andar, que alivia com o repouso. No impacto femoroacetabular, é uma dor profunda na virilha, pior ao estar sentado muito tempo ou depois de atividade.
- Dificuldade em gestos do dia a dia — pôr meias, calçar sapatos, entrar no carro, apertar os atacadores.
- Rigidez ao levantar ou depois de estar sentado, que passa em minutos.
- Coxear e perda de amplitude — dificuldade em abrir a perna para o lado ou rodá-la.
- Com o tempo, a perna afetada pode parecer ligeiramente mais curta.
Se a rigidez de manhã durar mais de 30–60 minutos, pense noutras causas e procure o médico — veja artrite ou artrose.
Anca ou coluna? Como não confundir
A dor da anca e a dor lombar que "desce" tratam-se de forma diferente — e muita gente anda a tratar a zona errada. Convém separá-las.
A dor da coxartrose concentra-se na virilha e agrava com a marcha e com os gestos de rodar ou abrir a anca (calçar, entrar no carro). Já a dor de origem lombar costuma partir das costas ou da nádega. A dor das facetas da coluna irradia para a nádega e a face posterior da coxa mas caracteristicamente não desce abaixo do joelho; a dor de uma hérnia com nervo comprimido tipicamente desce abaixo do joelho, seguindo o trajeto do nervo pela perna.
Na dúvida, é o médico que localiza a origem, muitas vezes com uma radiografia da anca. Se quiser perceber a coluna, veja artrose na coluna e cervical.
Como se mede a gravidade e como evolui
A gravidade da coxartrose no raio-X classifica-se pela escala Kellgren–Lawrence, de 0 a 4, que mede o estreitamento do espaço articular e os osteófitos. Nas articulações que suportam peso, como a anca, a evolução tende a ser progressiva, embora possa ser lenta ao longo de vários anos — e a perda de peso e evitar sobrecargas repetidas ajudam a travá-la.
Convém guardar uma ressalva, que evita muita angústia: nem sempre a imagem coincide com a dor. Há ancas com desgaste marcado no raio-X e queixa mínima, e há o oposto. É o médico, e não a imagem isolada, que decide a conduta.
O que fazer para aliviar
O que mais ajuda na anca não se compra:
- Controlar o peso, porque a anca carrega o corpo e menos peso alivia diretamente a carga a cada passo.
- Exercício adequado: fortalecer os músculos à volta da anca e das nádegas, com atividades de baixo impacto como nadar ou bicicleta. O exercício alivia a dor com um efeito comparável ao dos medicamentos, e as guidelines (OARSI, EULAR) colocam-no como tratamento de primeira linha para todos os doentes.
- Usar uma bengala do lado oposto quando a dor é grande — tira carga à anca doente.
- Analgésicos, indicados pelo médico.
Também aqui os suplementos ficam pela evidência fraca do costume — veja o que a evidência mostra. Nenhum reconstrói a cartilagem da anca, e as guidelines OARSI e ACR recomendam contra a glucosamina na anca. A medida com melhor evidência, e a única gratuita, continua a ser o peso e o movimento — precisamente aquilo sobre o qual os anúncios de cápsulas se calam.
Que exercícios ajudam a anca
O objetivo é fortalecer os músculos que estabilizam a anca — sobretudo os glúteos — e manter a amplitude, sem impacto. Alguns exemplos que um fisioterapeuta costuma indicar:
- Ponte de glúteos: deitado de costas, joelhos dobrados, elevar a bacia contraindo as nádegas.
- Abdução deitado de lado: elevar a perna de cima de forma controlada, para trabalhar os músculos laterais da anca.
- Movimentos suaves de amplitude, levando a perna para a frente, para o lado e a rodá-la dentro do que a dor permite.
- Andar em piscina ou pedalar, que mantêm a mobilidade sem carregar a articulação.
A regra é constância e progressão gradual, não intensidade. Uma dor ligeira durante o exercício é aceitável; dor que aumenta e persiste horas depois é sinal de que se exagerou. Um programa mantido durante semanas dá muito mais resultado do que sessões isoladas.
Quando se opera a anca
A artroplastia da anca (prótese) é considerada nos casos avançados, com dor que limita a vida e não melhora com as outras medidas. É uma das cirurgias ortopédicas com melhores resultados — muitas pessoas recuperam mobilidade e ficam sem dor.
A decisão e o momento são do ortopedista e baseiam-se na dor e na limitação, não apenas no grau do raio-X. Não é uma urgência, mas também não vale a pena adiar indefinidamente quando a qualidade de vida já está muito afetada. A recuperação envolve fisioterapia nas semanas seguintes para readquirir força e uma marcha normal.
O que este guia faz — e o que não faz
Explicamos o que é a coxartrose e o que ajuda. Não confirma que a sua dor vem da anca — dor na virilha, na coxa e no joelho pode ter várias origens (incluindo a coluna), e é o médico que localiza a causa, muitas vezes com uma radiografia. E não indicamos doses de suplementos por conta própria: sem avaliação, seria leviano — e é por essa brecha que muita venda entra a quem tem dores.
- anca ou perna subitamente incapaz de suportar o peso após queda (pode ser fratura, sobretudo em pessoas mais velhas)
- articulação quente com febre — possível infeção
- dor na anca que agrava depressa em dias ou semanas
- dor noturna com perda de peso sem explicação
- rigidez matinal com mais de 30–60 minutos
Fontes utilizadas
- Sintomas da osteoartrose, NHS: https://www.nhs.uk/conditions/osteoarthritis/symptoms/
- Impacto femoroacetabular (FAI): https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK547699/
- Displasia da anca como causa de artrose: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26668284/
- Prevalência da artrose da anca: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2920533/
- Dor da anca vs dor lombar irradiada: https://www.arthritis-health.com/types/osteoarthritis/what-spinal-osteoarthritis-facet-joint-arthritis
- Guideline OARSI (contra glucosamina): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31278997/