Artrose no tornozelo e nos pés: sintomas e o que fazer
Resposta curta: a artrose no tornozelo é menos comum que no joelho e, ao contrário das outras, costuma surgir depois de uma lesão antiga (uma entorse grave ou fratura), e não só pela idade. Nos pés, o local mais frequente é a base do dedo grande (hallux rigidus). Dá dor ao andar e ao apoiar o peso, e rigidez ao levantar. Trata-se com calçado adequado, exercício e analgésicos, evitando na maioria dos casos a cirurgia.
Porque o tornozelo é diferente: quase sempre pós-traumático
O tornozelo suporta o peso a cada passo, mas tem uma particularidade. A artrose "de idade" pura é aí muito menos comum do que no joelho ou na anca. A maioria dos casos é pós-traumática — resulta de uma lesão antiga que danificou a cartilagem, tipicamente uma fratura do tornozelo ou entorses graves e repetidas anos antes, com um desgaste lento e progressivo.
Isto explica uma dúvida frequente: ter artrose no tornozelo sem ser idoso. O gatilho costuma estar no passado. Quem partiu ou torceu mal o tornozelo há anos pode desenvolver artrose bastante mais cedo do que noutras articulações. É a chamada artrose secundária, com uma causa identificável no passado.
Os três locais que mais doem no pé e tornozelo
A artrose do pé e tornozelo concentra-se em três articulações, com queixas próprias de cada uma:
- No tornozelo (articulação tibiotársica), dor ao andar e ao apoiar o peso, quase sempre com história de traumatismo anterior.
- O hallux rigidus é a artrose da base do dedo grande do pé, a localização mais comum de artrose no pé. Dá rigidez e dor ao empurrar o pé no chão ao caminhar (na fase de impulso), muitas vezes com um calo ósseo visível que roça no calçado.
- A articulação subtalar (logo abaixo do tornozelo) é frequentemente secundária a entorses crónicas. Até 78% das pessoas com instabilidade crónica do tornozelo desenvolvem artrose pós-traumática. A queixa característica é dor a caminhar em terreno irregular, relva ou gravilha, onde o pé tem de se adaptar.
Quais são os sintomas
- Dor ao andar e ao apoiar o peso, que alivia com o repouso.
- Rigidez ao levantar ou depois de estar parado.
- Inchaço do tornozelo ou do pé depois de esforço.
- Dificuldade em dobrar o tornozelo ou o dedo grande.
- Em terrenos irregulares, sensação de instabilidade (típica da subtalar).
Dor no dedo grande: artrose ou gota?
Uma distinção importante, porque o tratamento é completamente diferente. Confundi-las sai caro. A artrose do dedo grande (hallux rigidus) instala-se devagar, com rigidez progressiva ao caminhar. A gota, pelo contrário, dá uma crise súbita: dor muito intensa, vermelhidão e inchaço na base do dedo grande, muitas vezes de um dia para o outro e sem esforço que a explique.
Perante uma dor súbita, muito intensa e vermelha no dedo grande, pense em gota e procure o médico — não é caso para calçado nem para suplementos. Outra causa comum de dor no pé é a fascite plantar (dor no calcanhar aos primeiros passos da manhã), que também não é artrose e se trata de outra forma.
O que fazer para aliviar
Aqui a medida com mais impacto é o calçado — e nenhuma delas passa por uma cápsula:
- Calçado adequado. Um sapato firme, com bom amortecimento e sola que não force a flexão do pé, faz grande diferença na marcha. No hallux rigidus, uma sola rígida (ou uma barra rígida na sola) evita dobrar o dedo e alivia a dor ao caminhar.
- Palmilhas e ortóteses. Podem estabilizar o pé e redistribuir a carga, sobretudo na artrose subtalar e no tornozelo instável.
- Exercício de baixo impacto. Nadar ou bicicleta mantêm a mobilidade sem sobrecarregar o tornozelo. Fortalecer os músculos que estabilizam o tornozelo ajuda quem tem instabilidade crónica.
- Controlar o peso, que alivia a carga a cada passo.
- Calor ou frio e repouso nas crises, e analgésicos quando o médico os indica.
Os suplementos não fogem à regra: evidência fraca, como em todas as articulações — veja o guia dos suplementos, com doses e preços. Nenhum reconstrói a cartilagem do tornozelo, e a medida com melhor evidência — bom calçado e movimento — não custa nada.
Como reduzir o risco de piorar
Como a artrose do tornozelo é sobretudo pós-traumática, há aqui uma margem de prevenção que noutras articulações quase não existe. Depois de uma entorse, vale a pena reabilitar bem, em vez de "esperar que passe":
- Recuperar a força e o equilíbrio do tornozelo com exercícios de propriocepção (apoiar-se num pé, superfícies instáveis), que reduzem as entorses repetidas.
- Tratar a instabilidade crónica, em vez de conviver com o tornozelo a "torcer" com frequência — é essa repetição que leva à artrose subtalar.
- Escolher calçado estável para terrenos irregulares e para o desporto.
- Reduzir a sobrecarga repetida quando o peso está a mais, o que também protege as articulações vizinhas.
Não se trata de evitar o movimento, mas de proteger um tornozelo já fragilizado para que o desgaste não avance mais depressa.
Como se avalia e como evolui
O diagnóstico faz-se pela história (quase sempre há uma lesão antiga) e por uma radiografia, que mostra o estreitamento do espaço articular e os osteófitos. A gravidade classifica-se, como nas outras articulações, pela escala Kellgren–Lawrence, de 0 a 4.
E há uma ressalva que se repete em todas as articulações, também aqui: a imagem nem sempre acompanha a dor. Há tornozelos com desgaste marcado no raio-X e pouca queixa, e o inverso também aparece — por isso quem decide a conduta é o médico, não a radiografia sozinha. A evolução tende a ser lenta ao longo de anos, e um bom calçado, o controlo do peso e a estabilização do tornozelo ajudam a travá-la.
Quando é preciso operar
A maioria dos casos controla-se sem cirurgia. Quando a dor é incapacitante e não melhora com calçado, ortóteses e exercício, há duas opções principais, que o ortopedista pondera:
- A artrodese (fusão da articulação) junta os ossos para eliminar o movimento doloroso. É muito eficaz na dor, à custa de perder a mobilidade daquela articulação, e continua a ser uma opção de referência no tornozelo.
- A prótese do tornozelo substitui a articulação e preserva algum movimento; é considerada em casos selecionados.
A escolha depende da idade, da atividade e do estado das articulações vizinhas, e é sempre uma decisão ponderada do especialista, não uma urgência a resolver de um dia para o outro.
O que este guia faz — e o que não faz
Explicamos a artrose do tornozelo e dos pés e o que ajuda. Não confirma a causa da sua dor — no tornozelo, que muitas vezes vem de lesões antigas, o médico avalia o histórico e pode pedir uma radiografia para decidir o tratamento. Doses de suplementos por conta própria ficam de fora: sem avaliação, seria irresponsável — e é essa mesma brecha que os vendedores exploram em quem tem dores.
- tornozelo ou pé quente, vermelho e inchado com febre
- incapacidade de apoiar o peso após queda ou torção forte (possível fratura)
- inchaço que agrava depressa sem melhorar com repouso
- dor com cansaço, febre baixa ou perda de peso
- dor súbita e intensa na base do dedo grande com vermelhidão (pode ser gota)
Fontes utilizadas
- Artrose do tornozelo, sobretudo pós-traumática: https://www.orthopaedia.com/arthrosis-of-the-ankle-and-hindfoot/
- Hallux rigidus (artrose da base do dedo grande): https://myhealthyfeet.org/conditions/foot-arthritis/
- Artrose subtalar e instabilidade crónica (até 78%): https://www.sportsmedreview.com/blog/subtalar-osteoarthritis/
- Osteoartrose, sintomas gerais, NHS: https://www.nhs.uk/conditions/osteoarthritis/symptoms/
- Artrite séptica (sinais de alarme), NHS: https://www.nhs.uk/conditions/septic-arthritis/