Dói-me o corpo todo — o que pode ser?
Dor espalhada pelo corpo e pelas articulações tem várias causas possíveis num adulto, e a idade, o sexo, os medicamentos e a forma como começou ajudam o médico a ordená-las. As principais hipóteses estão na tabela. Nenhuma se confirma a partir de uma lista lida em casa.
«Sempre me habituei a ter dor e desvalorizar», escreveu alguém numa pergunta a médicos em Portugal. A frase resume bem o problema. Uma dor com anos não passa a ser normal por ser antiga.
Fibromialgia: dor real com análises normais
A fibromialgia é uma causa de dor difusa persistente com análises normais: o EpiReumaPt encontrou-a em 1,7% dos adultos portugueses, com 3,1% nas mulheres e praticamente nenhum caso nos homens. Pode incluir fadiga, alterações do sono e dificuldades de concentração, segundo o NIAMS. EpiReumaPt
Não existe uma análise ou exame de imagem que a confirme. O diagnóstico apoia-se na história clínica, no exame físico e na avaliação de outras causas, como explica a informação do NIAMS sobre diagnóstico.
Os critérios do American College of Rheumatology revistos em 2016 não contam pontos dolorosos à pressão, como faziam os de 1990. Exigem dor generalizada num padrão definido, para não confundir uma dor de ombro isolada com fibromialgia; contra os critérios de 1990, tiveram 86% de sensibilidade e 90% de especificidade. ACR 2016
A dor não é imaginária por os resultados serem normais. Esses resultados também não confirmam, isoladamente, fibromialgia.
Polimialgia reumática: depois dos 50, ombros e ancas
A polimialgia reumática é uma doença inflamatória que causa dor nos dois ombros, muitas vezes também nas ancas, em pessoas com 50 anos ou mais. Os critérios EULAR/ACR de 2012 pedem VS ou PCR alteradas, fator reumatoide e anti-CCP negativos e ausência de artrite generalizada, o que a separa da artrite reumatoide de início tardio. Dejaco 2015
Costuma melhorar em poucos dias com doses baixas de corticoide. Essa decisão é do médico.
Menopausa: quando a dor muda com as hormonas
Mais de 70% das mulheres na transição para a menopausa têm sintomas musculoesqueléticos, incluindo dores articulares difusas, e 25% ficam limitadas por eles, segundo uma revisão de 2024. A associação com a queda do estrogénio é forte. A relação de causa, essa, ainda não está provada com certeza. Wright 2024
«Acho mesmo que é hormonal», lê-se num fórum português, quando a dor aparece numa fase de mudança hormonal. É uma pista útil para a consulta, não um diagnóstico. Se a dor se concentra nos dedos, a página sobre dores nas articulações das mãos e as suas causas trata esse padrão.
Depois de uma infeção ou de uma viagem
A dor articular pode prolongar-se depois de uma infeção viral. Num inquérito publicado em 2026, feito numa cidade do nordeste do Brasil onde a doença é endémica, a dor após chikungunya durou mais de 90 dias em 36,5% das pessoas que a tinham no início, e mais de 70% destas descreveram dor intensa. Mariz 2026
Em Portugal, a chikungunya aparece apenas em casos importados. Diga ao médico se teve febre ou regressou de uma viagem a zona tropical nas semanas anteriores.
Estatinas: a dor existe, a causa nem sempre é o medicamento
Nos registos e estudos observacionais, entre 7% e 29% das pessoas que tomam estatinas para o colesterol relatam queixas musculares. EAS 2015 Num ensaio britânico com 200 pessoas que já tinham tido dores com estatina, e que não sabiam em que períodos tomavam estatina ou placebo, as queixas foram semelhantes nos dois. StatinWISE 2021 Uma meta-análise de 2025, também em pessoas com esse historial, não encontrou diferença significativa nos sintomas musculares ao retomar a estatina (odds ratio 1,19; intervalo de confiança de 95% entre 0,86 e 1,64). Aebi 2025
O sintoma é real para quem o sente. O que a evidência cega sugere é que, em boa parte dos casos, não é a estatina a causá-lo.
Não pare a estatina por sua conta. Fale com o médico que a receitou.
Tiroide: a TSH como primeiro rastreio
Uma tiroide com pouca atividade, o hipotiroidismo, dá sobretudo cansaço, frio fora do habitual, aumento de peso e dificuldade de concentração. Confirma-se com uma análise ao sangue da TSH e da T4. NHS Não encontrámos um bom estudo sobre quantos adultos com hipotiroidismo têm dores articulares, e por isso não damos um número.
«As análises deram tudo normal» — e agora?
Análises normais não encerram a investigação. Em duas séries de doentes com artrite reumatoide, na Finlândia e nos Estados Unidos, a VS e a PCR estavam ambas normais na primeira consulta em 33% a 42% dos casos. Sokka e Pincus 2009 Na fibromialgia, nenhuma análise sai alterada.
Um resultado positivo isolado também não fecha a questão. Numa pergunta a médicos, uma pessoa em Portugal descreve um ANA positivo «sem qualquer outra alteração» e dois médicos a apontar hipóteses diferentes. A incerteza faz parte do percurso.
Pedir um «painel completo» às cegas não resolve. A revisão clínica sobre poliartrite de início recente desaconselha painéis de artrite genéricos, pedidos sem uma hipótese clínica prévia.